O clarão do relâmpago iluminou o interior do carro por uma fração de segundos...
O clarão do relâmpago iluminou o interior do carro por uma fração de segundos. Tempo suficiente para que eu percebesse uma revista semanal jogada no tapete do banco do passageiro. Um impulso de organização quase me fez abaixar para pegá-la, mas lembrei que estava com pressa, e entre o medo de me atrasar e a aflição de ver a revista jogada, decidi pegá-la mais tarde. Fazendo força para ignorar a revista, dei a partida e deixei o escritório para trás.
Os relâmpagos me lembravam a cada minuto que a chuva estava próxima, e isso me lembrava que o trânsito iria se tornar insuportável em breve. Melhor correr agora e evitar o risco de ficar preso naqueles congestionamentos típicos das sextas-feiras chuvosas. Procurando ganhar tempo, cortava caminho por ruelas pouco movimentadas, daquelas que a gente só conhece com o tempo. Não queria me atrasar, não gosto de deixar ninguém esperando.
Ao entrar na avenida principal, avistei as viaturas. Duas viaturas de polícia, daquelas normais, com o emblema da corporação na porta, as luzes vermelhas girando.
Dirigi até me emparelhar a eles, e dando a seta, posicionei meu carro entre as duas viaturas. Em baixa velocidade, seguimos dirigindo, chamando a atenção dos pedestres, que paravam para olhar os três carros enfileirados passarem.
Sinceramente, não achei inteligente a idéia de usarem as viaturas de polícia na minha escolta. Se o objetivo da escolta é garantir a segurança do escoltado, acho aquelas vans pretas que a S.W.A.T. usa em Los Angeles muito mais propícias. Sem luzes vermelhas, sem emblema nenhum, vidros escuros, escondendo os quatro agentes armados no interior do veículo. Chamaria menos atenção, certamente. Mas não sei porque, algumas cidades gostam de ostentar, mostrar a todos que estão escoltando alguém famoso. Melhor não pensar muito nisso, afinal, ficar pensando não vai mudar minha escolta de hoje.
O sinal de trânsito fica amarelo, muda para vermelho. Sinto uma tensão no ar. Se algum fã maluco quisesse correr até a janela do meu carro e me dar um tiro, como fizeram com John Lennon, esse seria o momento ideal. Os policiais teriam tempo de perceber o intruso e detê-lo antes que o pior acontecesse? Desceriam do carro? Ou atirariam de dentro do carro mesmo? E nesse exato momento, estariam atentos, olhando para os lados, a procura de algum movimento suspeito? Ou estariam em um bate-papo animado sobre a última capa da Playboy?
De qualquer forma, não corro esse risco. Não me lembro de ter negado nenhum autógrafo nos últimos dois anos. Valiosa lição aprendida com De Niro. Aliás, por onde andará De Niro?
Resolvo me concentrar nas pessoas ao meu redor. Os carros passam ao nosso lado, seus motoristas me olham com estranheza. Um grupo de jovens conversam animadamente na frente de uma lanchonete, param para nos ver passar. Uma garota do grupo sorri, sorrio de volta. Nunca mais verei aquela garota, mas valeu um sorriso.
Outro sinal fechado, mais um momento de tensão. Local deserto, escuro, as luzes vermelhas refletidas nas portas metálicas das lojas já fechadas, deixando o ambiente mais tenso do que é na realidade.
Luz verde, a viatura que está na minha frente dá sinal para virar a direita. Vira. Continuo reto, ignorando a escolta. Acompanho pelo retrovisor a segunda viatura seguir a primeira. As duas viaturas, com suas luzes chamativas, seguem seu caminho, seguem seu destino, seja lá qual for.
Sozinho novamente, abaixo o vidro, acendo um cigarro, relaxo. Para onde aquelas viaturas estariam indo? Pela calma que demonstraram, não era nenhuma emergência. Sei lá. Na verdade, não me importa. Mas que aqueles cinco minutos dirigindo entre as viaturas me fizeram sonhar, fizeram.