Crônica : PAYBACK
Enviado por Paulo Humemoto Junior em 09/09/2009 05:10:00 (672 leituras)

PAYBACK

Como todo grande primeiro amor, aquele havia deixado marcas profundas. Tudo tinha sido perfeito, o primeiro olhar, com aquela cumplicidade típica de quem se ama; o primeiro beijo, tenso e inseguro, as primeiras intimidades. Tudo muito lindo, muito jovem, muito fresco. A sensação era de que não precisavam de palavras, como se suas mentes trabalhassem em uma mesma frequência, sentiam as mesmas coisas, pensavam de forma igual. E como em todo grande primeiro amor, ele assumiu que duraria para sempre.

Talvez por isso a dor tenha sido tão forte. Não somente a dor da perda, mas o sentimento de traição, o amargo de não ter percebido que havia construído um sonho vazio, unilateral. Foi difícil vê-la andando de mãos dadas com o novo namorado pelas ruas do bairro, lugares por onde haviam caminhado juntos, jurando amor eterno. Ou melhor, noivo. Sim, ela havia terminado o namoro e uma semana depois estava a apresentar seu “noivo”. Ou melhor, “pediu um tempo”. Naquela época não se terminava um namoro, pedia-se um tempo para pensar.

Não só por isso, mas também por causa disso, ele se mudou. Sofreu por um ano. Dois talvez. Mas como tudo na vida, passou. Tanto que só foi se lembrar daquela garota quase vinte anos depois. Culpa do tal do Orkut, invenção do diabo. Olá. Lembra de mim? Nossa! Quanto tempo! Blablablá.

Não reconheceu a mulher pela foto do perfil. Se não fosse pelo nome, provavelmente enviaria uma mensagem perguntando de onde se conheciam. Foi checar o álbum de fotos, ver se realmente se tratava da mesma pessoa. Tomou um susto quando viu uma foto recente dela com o marido. Não conseguiu sentir a dor e a mágoa que esperava. Talvez por seu cérebro não ter conseguido ligar a imagem daquela mulher à garota que um dia ele havia amado tanto. O tempo havia sido ingrato para com ela, estava bastante envelhecida, muito gorda, irreconhecível. O marido, por sua vez, havia envelhecido de forma mais natural, provavelmente na mesma medida que ele próprio. Porém, era a mesma pessoa, os mesmos olhos, continuava em forma. Era fácil de reconhecê-lo.

E isso fez com que sentisse de novo aquele ódio, pontiagudo, amargo. Ódio que nutriu por muito tempo contra seu rival, o cara que havia roubado sua namorada. Sentiu as mãos trêmulas, um nó subindo pela garganta. Vinte anos depois ainda não tinha perdoado o inimigo. Lembrou-se das noites em claro, imaginando coisas horríveis, pedindo a Deus (ou ao diabo) que fizesse algo de ruim acontecer com aquele cara, ou até mesmo com o casal. Duas décadas mais experiênte, envergonhou-se daqueles pensamentos e desviou o olhar do monitor.

Olhou para a cama ao lado e ficou observando sua namorada dormindo. Sono tranquilo. Reparou no corpo perfeito da garota, no auge de seus 23 anos, as roupas de ambos ainda jogadas pelo chão, as taças de vinho sobre a mesa de centro. Lembrou-se de como havia desfrutado sua vida nos últimos vinte anos, as mulheres que teve, os momentos que viveu. Começou a sorrir enquanto voltava a olhar para a foto no computador.

Sorriso este que virou risada. Primeiro uma risada leve, preguiçosa. Que foi tomando força e se transformou em gargalhada, forte, profunda, curtida. Gargalhava enquanto olhava aquele casal da foto, ele, ainda jovem apesar dos anos, forte. Ela, judiada, com aquele olhar sem brilho característico das pessoas sem expectativa, trinta e tantos quilos acima do peso. Se abraçavam na foto, aquele abraço frouxo, automático, de quem não tem muitas outras opções. E ele continuava gargalhando, começava a sentir os músculos do abdomen doendo, as lágrimas escorrendo, não conseguia parar de rir.

E entre gargalhadas, olhando para seu antigo rival, disse a única coisa que conseguia pensar:

— Sifudeu!


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